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Eu amo Cambridge! Por Vanessa Gomes

A viagem começa na estação Kings Cross em Londres. O cenário visto da janela do trem vai mudando lentamente. Todos aqueles campos, o verde, o trem, tudo nos prepara para desembarcar na estação Cambridge. Essa transição é importante para evitar o choque de cultura, costumes e arquitetura. Ao sair da estação, a primeira visão é um amontoado de centenas de bicicletas e uma pequena fila para conseguir um táxi formada por pessoas que, como eu, ainda não têm uma bicicleta.
É meu primeiro dia do mestrado e eu preciso ir até meu college (minha moradia) antes de ir para a aula. Peço ao taxista para me deixar no Darwin College. Acho que ele não entendeu minhas palavras e digo-lhe o nome da rua, Silver Street. Ele responde ofendido que sabe obviamente onde fica. Tento me desculpar e ele logo me dá uma prova de que não apenas sabe o nome de todas as ruas e colleges da cidade, como também toda a história e os segredos de Cambridge.
O meu primeiro choque foi ali, vendo o taxista mais educado e culto que já tinha encontrado na vida, e ele me contou algo interessante sobre meu college que até hoje não sei se é verdade. Ele disse que o Darwin College estava localizado logo após uma linha divisória considerada nobre, que o separava de todos os colleges cristãos, uma vez que Darwin, pupilo da Universidade de Cambridge, criou um imenso problema para a igreja com sua Teoria da Evolução.
Eu já tinha ouvido falar que o meu college era um dos menos ricos, mas sem dúvida o mais divertido, acolhedor e o que tinha o bar mais legal (depois descobri que um dos motivos para essa fama era o preço das bebidas, bem mais baratas). Normalmente, os estudantes moram no college e usufruem de toda uma infraestrutura de entretenimento e de estudos. Fiquei apaixonada pela biblioteca do Darwin! Ela tem dois andares e fica bem à beira do rio Cam, com janelas enormes de vidro e, portanto, uma vista incrível.
O college acaba sendo sua identidade na Universidade, ele tem seu próprio brasão, times de remo e de tudo o que se pode imaginar, um bar, diversos salões para reuniões, chás e jantares, biblioteca e etc. Eu até entrei para o time de remo, o mais importante e tradicional esporte da cidade, que é toda rodeada por rios e canais, mas admito que foi apenas por alguns meses. Os dias secos e ensolarados compensavam, mas era muito difícil acordar para treinar às 6 horas da manhã, com uma temperatura de 2 graus Celsius e chuva.
Quando cheguei no college, fui até meu quarto no segundo andar pelas escadas, porque não tem elevador (ainda bem que não era no sexto andar). Ele tinha 10 metros quadrados, ou até menos, e era escuro mesmo com a luz acesa. Essa é uma das implicações que se tem em estudar em uma Universidade de mais de 500 anos. Deixei minhas malas e ao sair do quarto dei de cara com meu novo vizinho, um irlandês que logo me falou que moravam dez estudantes em nosso andar e que dividiríamos dois banheiros e uma minúscula cozinha entre todos. Além disso, ele me contou que todos os dez estudantes eram de nacionalidades diferentes e estudavam cursos diferentes, uma política do college.
Um pouco antes de entrar no mestrado eu tinha lido que alguns estudiosos tentavam explicar o fato de a Universidade de Cambridge possuir o maior número de alumnis que receberam o prêmio Nobel no mundo. E uma das explicações aponta exatamente a diversidade disciplinar, racial e cultural que há nos colleges, ou seja, embora os estudantes frequentem aulas todos os dias com seus colegas de classe, dentro de um mesmo curso, quando vão para o college para almoçar, morar e socializar, eles se deparam com uma grande diversidade de pensamentos e de ideias.
Não sei se conheci alguém que será premiado com um Nobel (certamente não serei eu), mas, de fato, aqueles que se tornariam meus grandes amigos não vieram do curso de mestrado em Finanças que frequentei, mas sim dos cursos de Física, Medicina, História, Biologia, Divindade, Direito, Psicologia, Engenharia, Neurociência, Química e assim vai.
Depois das aulas, eu sempre me esforçava para conhecer tudo que podia da cidade. Eu procurei ir a todos os colleges para, pelo menos, participar de um jantar formal. Esses jantares são uma verdadeira cerimônia, à luz de velas e regados a muito vinho tinto, e a maior parte dos estudantes e acadêmicos fala algumas coisas em Latim e usa uma beca igualzinha à do Harry Potter (na verdade, o filme foi inspirado nos costumes de universidades como Oxford e Cambridge). Era tudo muito diferente do que eu já tinha visto e vivido, mas não foi difícil aderir aos costumes.

E como falar das tradições de Cambridge sem mencionar os famosos debates no centro acadêmico, onde muitas pessoas importantes já discutiram ideias e muitos primeiros-ministros da Inglaterra foram formados? Embora eu tenha entrado no clube de debates e participado de alguns cursos, infelizmente não tive muito tempo para realmente me desenvolver nisso. É simplesmente maravilhoso ver pessoas tão jovens e tão bem preparadas participarem de debates de alto nível. Admirável e inspirador.
Cambridge tem seus lados cultural e boêmio extremamente próximos. Os dois bares que mais frequentei foram o The Anchor Pub e o The Eagle. Além de serem ótimos gastro pubs, o primeiro é famoso por ter sido o local de criação de uma das bandas inglesas mais sensacionais, o Pink Floyd, e o último por ter sido o local em que Watson e Crick anunciaram a descoberta do “Segredo da Vida”, mais conhecido como DNA.
Sim, tudo era de arrepiar. E a cada dia era uma surpresa nova, uma experiência diferente e algo novo a aprender. Em maio, quando todos os cursos são finalizados (como se fosse dezembro no Brasil), ocorrem os May Balls, bailes de gala organizados pelos colleges. Eu tive a sorte e o privilégio de conseguir um convite, extremamente concorrido, para o baile do Trinity, o college mais rico da Universidade. Foi simplesmente a melhor festa da minha vida e sinceramente acho que eu dificilmente irei em algo semelhante novamente. Champanhe e ostras à vontade a noite toda, excelentes bandas de jazz, rock e pop, tapetes vermelhos por toda a parte, os homens vestidos de tuxedo e gravata borboleta branca, as mulheres vestidas ao estilo de cerimônia de entrega do Oscar. Havia diversas tendas onde eram oferecidas por tema o tradicional chá da tarde inglês, comida turca, inglesa, árabe e cascatas de chocolate. Isso sem mencionar o parque de diversão que foi montado, o coral maravilhoso e os fogos de artifício mais lindos que já vi. Quase doze horas de festa e não foram suficientes.
Uma experiência mais fácil de se vivenciar e extremamente agradável é tomar o chá da tarde inglês no Orchard Tea Garden, em Grantchester, onde John Maynard Keynes e Virginia Woolf costumavam passar suas tardes. Pode-se ir a pé ou com uma bicicleta, como para qualquer outro lugar em Cambridge. Além disso, pode-se explorar a cidade pelos rios e canais em barquinhos impulsionados por você mesmo.
A maior dificuldade em Cambridge é dizer adeus, tanto para quem fica como para quem vai embora, porque, em geral, estão todos de passagem. Alguns ficam 8 anos, outros 5 anos ou apenas 1 ano, como eu. Os amigos doutorandos são os que mais sentem, pois dizem adeus muitas vezes. Mas, não se trata de um adeus trágico, porque sempre haverão oportunidades para visitar os novos amigos em seus países e vivenciar culturas e idiomas diferentes.
E como toda viagem chega a um fim, esta não foi diferente. Ela durou um ano, um ano incrível e inesquecível. Ficaram as lembranças e a gratidão por ter tido a oportunidade de viver em tão bela e elegante cidade e conviver com pessoas tão especiais e maravilhosas. Vale a pena a visita e vale muito a pena viver e aprender em Cambridge.


Vanessa Gomes
www.aliceswardrobe.com

 

 

 

 

 

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